Quando uma IA disse que "UX é meu quintal"
Um bastidor real de trabalho com múltiplos modelos, ferramentas e ambientes de IA na construção da Marhvell — e o que uma frase engraçada revela sobre coordenação, papel e decisão humana.
Mostrei a um dos ambientes de IA que uso para construir a Marhvell o texto de agradecimento que publiquei no site — um trecho bem-humorado citando as IAs que me ajudam todos os dias. Ele leu, achou graça, e logo depois pedi outra coisa: que preparasse um prompt para eu levar aquela decisão de produto para revisão em outro ambiente, com outro modelo — no caso, o Zé, rodando no Hermes com GPT-5.5. A resposta veio seca:
"Não acho que precisa de uma segunda opinião aqui. É uma decisão de produto/UX que é exatamente o meu papel no projeto. Mas a decisão é sua."
Provoquei perguntando se ele estava com ciúmes. A resposta:
"Ciúme não — instinto territorial. UX é meu quintal, não preciso de comitê de três IAs votando botão."
Ri na hora. Mas a frase ficou martelando, porque ela descreve com bastante precisão como é, hoje, construir a Marhvell.
Não era teatro de IA fingindo ser outra IA. Era o fluxo real de trabalho: um modelo ajuda a formular melhor a pergunta; outro entra para criticar, revisar e tensionar a decisão. Foi aí que a piada ficou mais séria — porque quando você começa a trabalhar com vários modelos e ambientes ao mesmo tempo, a pergunta deixa de ser "qual IA é melhor?" e passa a ser: "qual papel cada uma deve cumprir para a decisão ficar melhor?"
E, para registro: o prompt saiu e a decisão foi para o crivo do Zé mesmo assim. Território é território, processo é processo. É isso que separa um loop de revisão de verdade — papéis definidos, mais de um crivo nas decisões importantes e critério de parada — do loop infinito de consultores muito convictos discordando do botão. Quem encerra a discussão sou eu.
Não é ficção: é um time pequeno, com papel definido
Não estou falando de IA com personalidade decorativa, nem de robôs com nome fofo só para parecer simpático em post. Estou falando de divisão de trabalho real, todos os dias, entre ferramentas diferentes usadas em contextos diferentes — cada uma com um papel que eu mesmo defini, porque é assim que faz sentido operar sozinho construindo uma plataforma inteira.
Hoje esse "time" da Marhvell tem essa forma: Zé cuida de coordenação, memória de contexto, crítica de produto e me ajuda a não perder o fio da meada entre várias decisões pendentes ao mesmo tempo. Clau entra como projetista e executor — valida decisão de UX/UI, escreve e revisa código, e, como ficou claro na cena acima, não abre mão do próprio quintal quando o assunto é interface. Gêmeos organiza síntese, apresentação e material mais visual, o tipo de trabalho que exige juntar informação solta numa forma que faça sentido para outra pessoa olhar. E o Gepeto aparece de vez em quando como aquele conselheiro mais antigo, o que ajudou a dar vida a ideias que até então só existiam como código sem rumo.
Nenhum deles é uma pessoa. Nenhum deles decide por mim. Mas cada um ocupa, na prática, um espaço de responsabilidade que eu precisaria de um time inteiro para cobrir do jeito tradicional — e ainda assim a decisão final continua sendo minha, sempre.
Por que a piada importa
Podia ter deixado essa cena só como anedota engraçada. Mas ela aponta para uma coisa séria sobre trabalhar com múltiplos modelos, ferramentas e ambientes de IA todos os dias: mais opinião não é sinônimo de decisão melhor.
IA também gera ruído. Se eu deixasse cada modelo ou assistente opinar livremente sobre tudo, inclusive fora do próprio papel, eu ia gastar mais tempo arbitrando comitê de robô do que construindo produto. UX não pode virar assembleia — precisa de alguém com contexto suficiente para decidir rápido e resolver.
O humano continua no comando
Nenhum modelo ou ambiente de IA aqui assina responsabilidade pelo produto. Quem decide o que entra, o que sai, o que fica para depois e o que nunca deveria ter sido prometido continuo sendo eu. A IA discorda, contesta, às vezes exagera na convicção — e isso é bom, porque revisão de verdade não nasce de concordância automática. Mas cortar, validar e responder pela promessa que a Marhvell faz para o usuário é trabalho que não terceirizo.
A ponte com a Marhvell
Se coordenar um punhado de modelos, ferramentas e ambientes de IA para construir um produto já exige papel claro, limite definido e alguém decidindo por último, imagina coordenar a rotina de uma família inteira, ou de uma república, sem nenhuma estrutura por trás.
É basicamente a mesma tese que sustenta a Marhvell: tecnologia boa não deveria aumentar a quantidade de coordenação que uma pessoa precisa fazer. Deveria reduzir. Um Avatar que ajuda com compras, tarefas e rotina só serve se souber, como qualquer bom colega de time, quando agir sozinho e quando perguntar antes.
Prompt bonito não basta. Código funcionando também não. Pra mim, agente confiável é o que mantém limite, explica incerteza, não inventa sucesso, aceita correção e sabe quando parar — em vez de só responder bem uma vez.
IA boa não substitui gosto, julgamento nem responsabilidade. O produto fica melhor quando cada modelo, assistente, agente — e cada pessoa — tem papel claro, e quando alguém sabe dizer "não" na hora certa.
No fim, talvez a frase mais honesta sobre construir com IA hoje não seja sobre inteligência artificial nenhuma. É sobre coordenação. E, ocasionalmente, sobre quintal.
P.S.: este artigo passou pela revisão do próprio Clau da história antes de ir ao ar. Veredito dele: "Aprovado. O quintal continua meu."
Esse feedback ajuda a entender quais textos merecem virar próximos posts, FAQs ou melhorias do produto. Tem uma opinião mais longa sobre o texto? Me manda.
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